Um dos principais nomes do ciclismo brasileiro, Murilo Fischer, 30 anos, deixa claro que não aceita ser tratado como cavalo de corrida no mundo do esporte de rendimento, e que um “obrigado” vale tanto quanto qualquer salário. Portanto, assim que chegou de férias ao Brasil, fomos conversar com ele e saber mais sobre a experiência da paternidade, a carreira na Itália, um possível retorno ao país e sua participação nos Jasc 2010. Fischer falou.
Murilo Antônio Fischer nasceu em Brusque em 16 de junho de 1979. É ciclista profissional desde 2004, e mora em Treviso, na Itália, há oito anos e meio. Despontou na equipe Caloi em 2000, um ano depois foi fazer um teste no ciclismo europeu e se deu bem. Competiu pela Domina/Vacanze, equipe pela qual venceu a UCI Europe Tour em 2005, e pela Torino antes de chegar à Liquigás, equipe da qual se despede no fim deste ano, depois de defender suas cores por três temporadas. Em 2000, também foi o ano da estreia de Murilo Fischer em Jogos Olímpicos, conquistando o 89º lugar em Sidney. Quatro anos depois, em Atenas, Murilo foi o 62º colocado, e em Pequim, no ano passado, se tornou o ciclista brasileiro com a melhor marca em Olimpíadas ao terminar a competição na 20ª posição.
Depois de enfrentar uma temporada repleta de acidentes e fraturas, Murilo pode considerar 2009 como um divisor de águas em sua vida. Além de acertar contrato com uma nova equipe, o atleta encerra o ano na companhia da esposa Francine e do mais novo integrante da família Fischer, Luca, de nove meses. Novos objetivos traçados, é momento de saber o que Murilo Fischer tem a dizer.
Perro Itinerante: Depois de três temporadas, você está encerrando o contrato com a equipe italiana Liquigás. Existe a possibilidade de acertares com alguma outra equipe Pro Tour para 2010?
Murilo Fischer: Tudo está se encaminhando para que nesta semana eu possa anunciar o nome da minha nova equipe. Eu analiso todas as possibilidades, inclusive a de voltar para o Brasil. Mas, preciso colocar tudo na balança e pesar. Até porque depois de oito anos e meio competindo na Europa e uma vasta experiência, poderei contribuir para o desenvolvimento do ciclismo brasileiro.
PI: Como é a cobrança de um ciclista profissional em uma equipe de ponta?
MF: Passei para profissional em 2004, e nos três primeiros anos na Itália, correndo pela Domina Vacanze e pela Torino, fui acostumado a viver em um ambiente mais humano, até porque eram equipes menores. Já na Liquigás, na qual acredito que os investimentos por ano giram em 7 a 8 milhões de Euros (cerca de R$ 20,5 milhões), automaticamente, quando se começa a falar em muito dinheiro, a parte humana fica de lado e só resta o profissional. Sempre fiz meu trabalho, mas a cobrança é enorme e muito estressante. Ao invés de te passarem tranquilidade, nas equipes grandes tu és tratado igual a cavalo de corrida, no qual eles acham que cinco têm que ganhar uma única prova.
PI: Mas o ciclismo é um esporte de equipe, não é?
MF: O ciclismo é um esporte coletivo, mas ao mesmo tempo é individual. Porque tudo depende do trabalho de equipe, mas quem ganha é um só. O Lance Armstrong (ciclista norte-americano) ganhou sete Tours de France seguidos, mas, se ele estivesse correndo sozinho, não ganhava nenhum. Existe toda uma tática de corrida, para anular certos momentos de fuga, para levar água até o líder, então todo mundo tem que ser valorizado.
PI: Na Liquigás você trabalhou bastante pela equipe?
MF: Nos primeiros dois anos, nós tínhamos uma equipe muito forte, com o Filippo Pozzato, o golden boy italiano, e sempre trabalhamos para ele andar bem. Então, foram dois anos suados, porque é uma grande responsabilidade colocar o cara no lugar certo, fazer o máximo por ele. Pelo Filippo sempre fui reconhecido, tanto que ele me convidou para correr na equipe dele no ano que vem, mas, por outro lado, não fui reconhecido pela diretoria da Liquigás como eu gostaria. Para a eles, eu só fiz a minha obrigação. Eu sei disso, mas, todo mundo gosta de receber um elogio.
PI: Em oito anos e meio competindo na Itália, você alcançou seus objetivos?
MF: Consegui realizar muitos sonhos, e realizar sonhos sempre é legal. Realizei muitas coisas que eu sonhava, como me tornar profissional, o que é muito seletivo. No profissional,ou tu paga para entrar, que não foi o meu caso, ou tu entras por mérito. Entrar por mérito é a realização de um sonho. Além disso, realizei muitos outros sonhos pessoais, conheci lugares e pessoas. Em 2000, eu tinha 21 anos, era a minha primeira Olimpíada, e corri ao lado de Jan Ullrich (ciclista alemão que foi medalha de ouro na prova de estradas nas Olimpíadas de Sidney, em 2000). Participar da Olimpíada é outro sonho que realizei.
“Nas equipes grandes tu és tratado igual a cavalo de corrida” - Murilo Fischer
PI: Você participou das Olimpíadas de 2000, 2004 e 2008. Teremos Murilo Fischer em Londres 2012?
MF: Meu objetivo, inclusive, é participar em 2016 das Olimpíadas no Rio de Janeiro. Conheço campeão olímpico com 41 anos, então, acho que com 38 anos, com a vida saudável que levo, tudo isso influencia no futuro. Outra coisa que notei é que tive uma grande ascensão em níveis de resultados. Na primeira Olimpíada fiquei em 89º, na segunda em 62º, e depois em 20º. É óbvio que isso demonstra que em oito anos meu rendimento melhorou.
PI: O piloto de F-1 Fernando Alonso pretende montar uma equipe de ciclismo?
MF: Surgiu um boato de que o Fernando Alonso, o banco Santander e Red Bull estariam criando uma nova equipe de ciclismo. Até acho estranho a Red Bull nunca ter entrado no ciclismo, que é um esporte que tem tudo a ver com adrenalina e energia. Escutei esse boato, mas não sei o quanto é verdade. Ele (Fernando Alonso) é muito amigo do (ciclista) Alberto Contardor, que ganhou o Tour de France (em 2007 e 2009). Tomara que a equipe seja realmente criada, pois serão 25 novas possibilidades de emprego para os ciclistas.
PI: Em 2009, nasceu o Luca. Como é a experiência de ser pai?
MF: Ser pai não tem explicação. Tudo o que todo mundo fala, do sentimento de ser pai, é muito maior e não tem como descrever. Tu não sentes o cansaço, levantas à noite e não tem problema. E quando tu tens um filho é que tu vês realmente a pessoa que tu tens ao teu lado. A Francine (esposa) é uma excelente mãe e que me surpreendeu positivamente em vários aspectos.
PI: O nascimento do Luca pode interferir na sua decisão ao assinar o próximo contrato?
MF: Lógico. Todo mundo sabe que a Europa é primeiro mundo, e poder educar um filho no primeiro mundo não há comparação com educar no Brasil, mesmo eu tendo sido educado aqui. Mas, por exemplo, o sistema sanitário que se tem lá (na Europa) é algo incrível, algo que funciona com perfeição. Então, educar um filho é também pensar na saúde, no bem-estar e no futuro dele.
PI: Existe a possibilidade de você participar dos 50º Jogos Abertos de Santa Catarina, em Brusque no próximo ano?
MF: Existe a possibilidade, mas preciso saber qual o interesse da Fundação (Municipal de Esportes de Brusque). Assim como posso correr por Brusque, existe a possibilidade de correr por outro município. Vou correr por Brusque se houver um retorno, porque acho completamente antiético contratarem o atleta, o fazer correr os Jogos Abertos, sendo que pessoas como o Carlito e o (Eduardo) Gohr, que tem a escolinha e trabalham o ano todo, não ganham um centavo de ajuda. Então, vai ser meio que uma troca de favores. Se eu perceber que existe a possibilidade de ajudar o ciclismo de Brusque, posso correr. Senão, vou correr por outro município, e o que eu receber com algum contrato, posso ajudar as equipes da cidade. Acho que sou importante para Brusque conseguir algum resultado, mas temos que ver se haverá um retorno. Não adianta só dar e não receber.
PI: Além do ciclismo, quais são tuas outras paixões?
MF: Eu sou apaixonado por carros antigos e por relógios. Não tenho coleção de relógios porque é algo muito caro, mas sou apaixonado. E tenho um Dodge Le Baron ano 1979 que consegui comprar com o dinheiro do ciclismo quando eu ainda morava no Brasil.
Texto e Fotos: Elton555
Esta entrevista foi publicada na edição de segunda-feira, 16 de novembro, do Jornal Município Dia a Dia